sábado, 16 de novembro de 2013

Empilhados





            Chovia. Era um daqueles dias de verão em que apesar da chuva fina e do céu nebuloso, o calor se fazia presente. Era dia de finados(explica-se o clima), mas não queria ficar em casa. Parti juntamente com minha amada para um programinha. Fomos a um desses Centros Culturais perdidos pelas ruas, e que muitos desconhecem a sua existência. Como as exposições estavam fechadas ao público, fomos à pequena sacada existente na cobertura do prédio. Ali, em meio a um beijo e outro, parei no tempo vislumbrado com a paisagem: por entre um mar de edifícios, apresentava-se o mar, o Pão de Açúcar, e o Castelinho do Flamengo(adivinhou onde eu estava?). Mas não me prendi a essas belezas já tão desgastadas pelos adjetivos de outros autores. O que me chamou a atenção foram justamente aquelas construções lotadas de gente, fugidios de uma chuva fina que não faz mal a ninguém. Seriam eles felizes? A demografia pesada das grandes cidades obriga os seres humanos a amontoarem-se sobre os outros, e eu mesmo estava ali em iguais condições.  Comecei a reparar às janelas dos apartamentos(sem ser percebido nem por eles, nem por minha amada). Algumas pessoas sorriam animadamente, ao que concluí ser este o programa de feriado escolhido por elas: um bom almoço com família e amigos, regado a muitas brincadeiras, talvez até em razão de estarem sendo observados. Outros se exibiam em trajes sumários, se expondo, quase pateticamente exigindo um olhar que os libertasse da solitária ostentação. Imaginei aquelas pessoas como livros empilhados numa estante. A cada “prateleira”, uma nova história, um novo início e um novo fim. Em cada “livro”, uma nova capa onde se vê o título e do qual se tenta adivinhar seu conteúdo, quase sempre erradamente.
            Sem perceber fui julgando a mim mesmo, buscando enxergar além da capa. Que tipo de livro seria eu? Certamente não seria um daqueles romances enfadonhos que são vendidos em qualquer banca de esquina, nem uma daquelas publicações de ex-drogados(ex?) que se dizem “magos” apenas para produzir best-sellers. Sempre quis ser um “Fernão Capelo Gaivota”, voar além dos meus limites, e talvez até ser um “Profeta”, como o Zaratustra de Nietzsche. Mas minha vida tem sido uma “Divina Comédia” e eu, “Dom Casmurro” que sou, vou vivendo essa “Morte e Vida Severina”. E no meio disso tudo, à “Noite na Taverna” me sobra espaço pra “Flor de Poemas” que vive em mim “Para viver um grande amor”. Sou essa mistura desordenada como a selva de concreto à minha frente, sou gente infelizmente, como esses que julgo inconseqüentemente. Porém, como um bom livro que pode ser reescrito, venho riscando parágrafos imperfeitos em busca da utópica perfeição. A chuva aumenta e eu tenho que ir. Percebo que sou mesmo é um “Pequeno Príncipe” voltando pra minha rosa...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sonhos


      Era uma tarde nublada de verão. Não estava frio nem chovia. Era apenas o instante. Apenas o momento certo. Do banco de madeira vi uma mulher que brincava com uma criança. Tinha os cabelos cacheados como os da mãe. De repente ela se vira e dá um sorriso. Acena e vem em minha direção. – Não vem brincar, pai? – diz a menina. Abraço-a e a deixo correr pelo parquinho. Sua mãe me sorri. Amo essa mulher. Amo cada parte de seu corpo, cada detalhe de sua alma. E ela sabe disso. Súbito acordo com o despertador. Não tive tempo de dizer o quanto a amo. E não posso evitar a lágrima furtiva. Sonhar às vezes é um exercício de frustração contínua. Acordar, de mortificação. Nesse exato momento ela lê o que sinto. Ela sabe o que sinto. E me olha sem saber o que dizer. Nesse momento eu realmente desejo a morte. Mas talvez a morte seja outro despertador. Talvez no momento da morte eu acorde novamente sem saber o que ela sente por mim. Fecho os olhos. Desta vez estou sentado à beira da praia. Ela está em meus braços, absorvida em seus pensamentos, olhando o mar. A paisagem não consegue competir com seu rosto. Embora tocado pelo tempo, permanece como uma pintura de Renoir, bela e enigmática. Ela sorri e deixa uma frase escapar, mas não consigo escutar devido ao barulho das ondas. Mas compreendo o que ela disse e respondo: - Também te amo! Ela ri e lembra do início de tudo, quando tentou me afastar, quando pediu que nada exigisse dela. Então digo que nada exijo, apenas me dôo de todo coração. Antes de beijá-la acordo novamente. Tenho pensado constantemente nisso: Quantas vezes mais terei de acordar até que possa continuar sonhando?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011



Sobre formigas

         Era praticamente impossível vê-la por entre as ranhuras do piso, mesmo sendo este de uma brancura límpida. Estava lá, esmagada involuntariamente por meu sapato, e diga-se de passagem, só a notei porque fui exatamente tirar meu calçado. Reparei quase que sem querer aquele animalzinho tremendo como se fosse portador do Mal de Parkinson. Estava morrendo. Como infelizmente não fiz medicina veterinária, e mesmo que tivesse feito não poderia engessar suas patinhas, tampouco fazer massagem cardíaca, apenas aguardei seu trágico fim.
         Nunca pensei que pudesse sentir-me tão mal com a morte de algo tão pequeno como uma formiga. Com certeza havia uma boa dose de influência de minha namorada, uma semi-vegetariana inconformada com a mortandade de animais à revelia em todo o planeta. Mas o fato é que comecei a me questionar: se temos responsabilidade ambiental pelos nossos irmãos animais, devemos nos ater somente a um determinado grupo de vertebrados? Será que aquele animalzinho que estava dando seu último suspiro não tinha alma? Será que tamanho é documento?
         Lembro de quando era criança e brincava de queimar formigas com lupas (atire a primeira pedra quem nunca brincou assim), jogava água nos formigueiros apenas para ver a luta pela sobrevivência. Me senti um assassino. A palavra é forte, mas é a única que me veio à cabeça. Assassino. Pensando assim, não creio que conseguirei meu lugar ao céu, pois tenho asco, raiva e até medo de outros animais de igual estatura. Mas me senti impelido a nunca mais mastigar um ser vivo novamente, mesmo que esteja morto. Será que consigo? - pensei comigo mesmo. Às vezes sinto necessidade de comer um bifezinho, uma vitela, um medalhão de frango, enfim..
         Subitamente lembrei que me alimento de tantos outros seres quanto me é possível imaginar. E mesmo que deixe de comer alguns animais, ainda há uma questão: Os vegetais não têm vida? Será que não possuem uma alma? Se não comer vegetais ou animais, de que me alimentarei? Acabo de lembrar como funcionam as coisas, da lei do mais forte. Tanto no reino animal como no vegetal, esta é a diretriz principal: sobrevive o mais forte! A única coisa que nos faz quebrar esta regra, é que nenhum outro animal ou vegetal precisa de mais do que o suficiente para sua subsistência. Somente os seres humanos têm a estranha prática da crueldade pela crueldade. Mas também têm a opção. Têm a vantagem de poder optar entre ser cruel e ser humano. Hoje tive meu momento humano. Estou de luto pela formiga.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sobre Despedidas


É muito ruim aperceber-se longe dos entes queridos. A distância, é fato, coopera com a saudade. Despedir-se é um antigo ritual criado pelos seres humanos, talvez para ampliar a sensação de abandono. Por que diabos o homem tem o estranho hábito masoquista de se despedir? Dar adeus à beira da estrada, no portão de embarque, numa plataforma de trem, só antecipa uma melancolia muitas vezes desnecessária. Mas por Deus, como sinto necessidade disso! Digo isso porque alguém que amo viajou e não pude me despedir. Isso acabou comigo. Não entendo o porquê. Logo, logo estará de volta, mas o fato de não tê-la levado ao aeroporto me deixou mal. Queria beijá-la, abraçá-la, observá-la, como a guardar provisões de carinho suficientes para os próximos vinte dias em que ela estará fora. Pelo menos é isso que aparentemente tentamos fazer. Inutilmente. Meia hora depois o coração vem à boca, e as lágrimas aos olhos. Pensei que seria mais fácil desta forma, sem despedidas, nem choro, nem nada. Ledo engano. Fica uma sensação de vazio bem maior, uma distância incomensurável entre a partida e o retorno. Pensando bem, talvez não seja tão ruim assim... Saber que haverá uma volta renova o corpo e a alma. Desenregela o peito e desanuvia o espírito. Como pude esquecer? Os aparatos da tecnologia vieram para nos livrar da sensação angustiante de sermos formigas em florestas distantes. E cumprem bem o seu papel. O telefone, mais especificamente o celular, traz pra pertinho alguém a kilômetros de distancia. E o que dizer da Internet? Pelos céus, que invenção dos deuses! Nada como uma web cam numa hora dessas. MSN, orkut, facebook, myspace, twitter, entre outras formas de diminuir distâncias. Só não inventaram (ainda) a sensação do toque. Pode-se enganar o paladar, o olfato, a visão, menos o tato. Mas isso já é papo de cientista. Prefiro assuntos menos palpáveis. Mas pelo jeito saudade é um sentimento fadado a ficar no passado. Começo a lembrar com nostalgia dos tempos em que se sentia saudade...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Aranha

         Como sempre faço diariamente, fui tomar meu banho matinal antes de ir para o trabalho. Abri o chuveiro, molhei o corpo, me ensaboei e... uma aranha na parede do banheiro! Tudo bem que nem todo mundo sente medo de aranha, mas em se tratando deste narrador, a aracnofobia convive com o medo de agulhas (este parece típico dos homens, mas nem todos assumem). Pois bem, a danada estava lá me olhando, como se estivesse apreciando meu banho. Não consegui continuar o que fazia. Peguei o chinelo e... Plaft! Na mosca! Quer dizer, na aranha. Talvez você esteja imaginando que espécie de aranha seria: uma viúva negra, uma armadeira, uma caranguejeira. Sinto informar que o medo não escolhe tamanho: era uma pequena aranhinha doméstica.
         Atire a primeira pedra aquele que nunca sentiu medo, essa pequena palavra que traduz um sentimento tão forte que é capaz de alterar os batimentos cardíacos de qualquer Shwarzennegger. Alguns chegam a dizer que seu único medo, é um dia ter medo de alguma coisa (devo rir?). O fato é que todos nós sentimos algum tipo de fobia, seja relacionada à altura, à escuridão, às agulhas, aranhas, etc. Mas talvez o maior medo do homem seja o medo da morte. Morrer é bom? Ninguém sabe, mas então porque temer? Talvez a angústia de não saber o que nos aguarda explique o temor.
A angústia e a ansiedade        criadas ante a uma situação crítica talvez sejam a chave da resolução do problema. Outro dia me dei conta de que não temo mais a morte, e cheguei à conclusão de que isto só ocorreu depois que passei a acreditar que de alguma forma esta vida é só uma etapa de nossa existência. Teoria com retoques religiosos? Pode ser, mas o fato é que quando me libertei de algumas pressões vindas da ânsia de saber o que vem depois, deixei de me preocupar com a falta que esta vida me faria.
         E como esquecer os temores do intangível? Os medos da perda, do sofrimento, da culpa, entre outros. O medo é inerente ao ser humano, bem como sua antítese: a coragem. É ela quem nos faz erguer os olhos, respirar fundo e encará-lo. A coragem é quem nos mostra que nossos medos são puramente superficiais, embora necessários. Sem  medo não existe coragem, e quem nunca sentiu medo, nunca foi corajoso. Mas e quanto à bendita aranha? Talvez enfrentá-la resolvesse o problema, mas não consegui. Tenho medo só de imaginá-la. Talvez algumas coisas devam ficar só no sentir, e não no pensar. Afinal de contas esse é um temor com o qual consigo sobreviver acomodadamente.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dos Perfeitos Infelizes

Hoje acordei meio feliz. Não que esteja triste ou infeliz, pelo contrário. O fato é que não estou plenamente feliz, e não sei se isto seria possível, mas sinto-me satisfeito. Felicidade plena a meu ver é utopia, uma projeção de vida perfeita que nunca atingiremos. Talvez a felicidade resida nessa imperfeição da vida, no fato de que cada momento que temos de alegria seja raro e ao mesmo tempo inesquecível. Ouso dizer que o segredo talvez seja a busca e não a conquista.
Lembro nesse momento daquelas pessoas que nunca estão felizes com o que têm, paradoxalmente às suas vidas "perfeitas". Quando me refiro a tais pessoas não quero de forma alguma minimizar seus problemas e dificuldades, pois todo ser humano que se preza carrega consigo este tipo de vicissitude. Raro é falar sobre pessoas que sempre tiveram tudo na vida: uma bela família, um bom emprego, bons estudos, saúde perfeita, um bom companheiro, amigos, etc. Em oposição a tudo isso, não é difícil encontrar quem desfrute de tais benefícios e não se sinta feliz. Seria possível? - indagaria o leitor. Ora, ser feliz pode ser muito diferente de se sentir feliz.
Ser feliz talvez seja chegar em casa cansado depois de um dia de trabalho e ouvir aquela faixa do novo Cd do Djavan, ou apenas cair na cama sem ao menos tirar os sapatos e velejar nas caravelas do inconsciente. Enfim, momentos recheados da mais pura simplicidade. O mundo está cheio de verdadeiros guerreiros, que vêm de famílias problemáticas, têm subempregos, pouco estudo ou saúde debilitada, não tão felizes como os "perfeitos", mas que sabem encontrar motivos por mais simples que sejam, para se sentirem felizes. Deveriam servir de exemplo para aqueles que são "perfeitos" infelizes. Lembro-me de um trecho daquela música: "Na vida a coisa mais feia, é gente que vive chorando de barriga cheia."
         Pode até ser que eu esteja errado, mas não acho que devíamos buscar incessantemente a felicidade, que escorre pelas mãos como areia na medida em que tentamos agarrá-la. O segredo, creio eu, é justamente sentir os grãos passando suavemente sobre a pele, o contato da areia macia massageando os dedos, a alegria de saber que podemos repetir esse momento. O melhor da felicidade é a busca, não a conquista.