Chovia. Era um daqueles dias de verão em que apesar da chuva fina e do céu nebuloso, o calor se fazia presente. Era dia de finados(explica-se o clima), mas não queria ficar em casa. Parti juntamente com minha amada para um programinha. Fomos a um desses Centros Culturais perdidos pelas ruas, e que muitos desconhecem a sua existência. Como as exposições estavam fechadas ao público, fomos à pequena sacada existente na cobertura do prédio. Ali, em meio a um beijo e outro, parei no tempo vislumbrado com a paisagem: por entre um mar de edifícios, apresentava-se o mar, o Pão de Açúcar, e o Castelinho do Flamengo(adivinhou onde eu estava?). Mas não me prendi a essas belezas já tão desgastadas pelos adjetivos de outros autores. O que me chamou a atenção foram justamente aquelas construções lotadas de gente, fugidios de uma chuva fina que não faz mal a ninguém. Seriam eles felizes? A demografia pesada das grandes cidades obriga os seres humanos a amontoarem-se sobre os outros, e eu mesmo estava ali em iguais condições. Comecei a reparar às janelas dos apartamentos(sem ser percebido nem por eles, nem por minha amada). Algumas pessoas sorriam animadamente, ao que concluí ser este o programa de feriado escolhido por elas: um bom almoço com família e amigos, regado a muitas brincadeiras, talvez até em razão de estarem sendo observados. Outros se exibiam em trajes sumários, se expondo, quase pateticamente exigindo um olhar que os libertasse da solitária ostentação. Imaginei aquelas pessoas como livros empilhados numa estante. A cada “prateleira”, uma nova história, um novo início e um novo fim. Em cada “livro”, uma nova capa onde se vê o título e do qual se tenta adivinhar seu conteúdo, quase sempre erradamente.
Sem perceber fui julgando a mim mesmo, buscando enxergar além da capa. Que tipo de livro seria eu? Certamente não seria um daqueles romances enfadonhos que são vendidos em qualquer banca de esquina, nem uma daquelas publicações de ex-drogados(ex?) que se dizem “magos” apenas para produzir best-sellers. Sempre quis ser um “Fernão Capelo Gaivota”, voar além dos meus limites, e talvez até ser um “Profeta”, como o Zaratustra de Nietzsche. Mas minha vida tem sido uma “Divina Comédia” e eu, “Dom Casmurro” que sou, vou vivendo essa “Morte e Vida Severina”. E no meio disso tudo, à “Noite na Taverna” me sobra espaço pra “Flor de Poemas” que vive em mim “Para viver um grande amor”. Sou essa mistura desordenada como a selva de concreto à minha frente, sou gente infelizmente, como esses que julgo inconseqüentemente. Porém, como um bom livro que pode ser reescrito, venho riscando parágrafos imperfeitos em busca da utópica perfeição. A chuva aumenta e eu tenho que ir. Percebo que sou mesmo é um “Pequeno Príncipe” voltando pra minha rosa...

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