terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Sobre Despedidas


É muito ruim aperceber-se longe dos entes queridos. A distância, é fato, coopera com a saudade. Despedir-se é um antigo ritual criado pelos seres humanos, talvez para ampliar a sensação de abandono. Por que diabos o homem tem o estranho hábito masoquista de se despedir? Dar adeus à beira da estrada, no portão de embarque, numa plataforma de trem, só antecipa uma melancolia muitas vezes desnecessária. Mas por Deus, como sinto necessidade disso! Digo isso porque alguém que amo viajou e não pude me despedir. Isso acabou comigo. Não entendo o porquê. Logo, logo estará de volta, mas o fato de não tê-la levado ao aeroporto me deixou mal. Queria beijá-la, abraçá-la, observá-la, como a guardar provisões de carinho suficientes para os próximos vinte dias em que ela estará fora. Pelo menos é isso que aparentemente tentamos fazer. Inutilmente. Meia hora depois o coração vem à boca, e as lágrimas aos olhos. Pensei que seria mais fácil desta forma, sem despedidas, nem choro, nem nada. Ledo engano. Fica uma sensação de vazio bem maior, uma distância incomensurável entre a partida e o retorno. Pensando bem, talvez não seja tão ruim assim... Saber que haverá uma volta renova o corpo e a alma. Desenregela o peito e desanuvia o espírito. Como pude esquecer? Os aparatos da tecnologia vieram para nos livrar da sensação angustiante de sermos formigas em florestas distantes. E cumprem bem o seu papel. O telefone, mais especificamente o celular, traz pra pertinho alguém a kilômetros de distancia. E o que dizer da Internet? Pelos céus, que invenção dos deuses! Nada como uma web cam numa hora dessas. MSN, orkut, facebook, myspace, twitter, entre outras formas de diminuir distâncias. Só não inventaram (ainda) a sensação do toque. Pode-se enganar o paladar, o olfato, a visão, menos o tato. Mas isso já é papo de cientista. Prefiro assuntos menos palpáveis. Mas pelo jeito saudade é um sentimento fadado a ficar no passado. Começo a lembrar com nostalgia dos tempos em que se sentia saudade...

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Aranha

         Como sempre faço diariamente, fui tomar meu banho matinal antes de ir para o trabalho. Abri o chuveiro, molhei o corpo, me ensaboei e... uma aranha na parede do banheiro! Tudo bem que nem todo mundo sente medo de aranha, mas em se tratando deste narrador, a aracnofobia convive com o medo de agulhas (este parece típico dos homens, mas nem todos assumem). Pois bem, a danada estava lá me olhando, como se estivesse apreciando meu banho. Não consegui continuar o que fazia. Peguei o chinelo e... Plaft! Na mosca! Quer dizer, na aranha. Talvez você esteja imaginando que espécie de aranha seria: uma viúva negra, uma armadeira, uma caranguejeira. Sinto informar que o medo não escolhe tamanho: era uma pequena aranhinha doméstica.
         Atire a primeira pedra aquele que nunca sentiu medo, essa pequena palavra que traduz um sentimento tão forte que é capaz de alterar os batimentos cardíacos de qualquer Shwarzennegger. Alguns chegam a dizer que seu único medo, é um dia ter medo de alguma coisa (devo rir?). O fato é que todos nós sentimos algum tipo de fobia, seja relacionada à altura, à escuridão, às agulhas, aranhas, etc. Mas talvez o maior medo do homem seja o medo da morte. Morrer é bom? Ninguém sabe, mas então porque temer? Talvez a angústia de não saber o que nos aguarda explique o temor.
A angústia e a ansiedade        criadas ante a uma situação crítica talvez sejam a chave da resolução do problema. Outro dia me dei conta de que não temo mais a morte, e cheguei à conclusão de que isto só ocorreu depois que passei a acreditar que de alguma forma esta vida é só uma etapa de nossa existência. Teoria com retoques religiosos? Pode ser, mas o fato é que quando me libertei de algumas pressões vindas da ânsia de saber o que vem depois, deixei de me preocupar com a falta que esta vida me faria.
         E como esquecer os temores do intangível? Os medos da perda, do sofrimento, da culpa, entre outros. O medo é inerente ao ser humano, bem como sua antítese: a coragem. É ela quem nos faz erguer os olhos, respirar fundo e encará-lo. A coragem é quem nos mostra que nossos medos são puramente superficiais, embora necessários. Sem  medo não existe coragem, e quem nunca sentiu medo, nunca foi corajoso. Mas e quanto à bendita aranha? Talvez enfrentá-la resolvesse o problema, mas não consegui. Tenho medo só de imaginá-la. Talvez algumas coisas devam ficar só no sentir, e não no pensar. Afinal de contas esse é um temor com o qual consigo sobreviver acomodadamente.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dos Perfeitos Infelizes

Hoje acordei meio feliz. Não que esteja triste ou infeliz, pelo contrário. O fato é que não estou plenamente feliz, e não sei se isto seria possível, mas sinto-me satisfeito. Felicidade plena a meu ver é utopia, uma projeção de vida perfeita que nunca atingiremos. Talvez a felicidade resida nessa imperfeição da vida, no fato de que cada momento que temos de alegria seja raro e ao mesmo tempo inesquecível. Ouso dizer que o segredo talvez seja a busca e não a conquista.
Lembro nesse momento daquelas pessoas que nunca estão felizes com o que têm, paradoxalmente às suas vidas "perfeitas". Quando me refiro a tais pessoas não quero de forma alguma minimizar seus problemas e dificuldades, pois todo ser humano que se preza carrega consigo este tipo de vicissitude. Raro é falar sobre pessoas que sempre tiveram tudo na vida: uma bela família, um bom emprego, bons estudos, saúde perfeita, um bom companheiro, amigos, etc. Em oposição a tudo isso, não é difícil encontrar quem desfrute de tais benefícios e não se sinta feliz. Seria possível? - indagaria o leitor. Ora, ser feliz pode ser muito diferente de se sentir feliz.
Ser feliz talvez seja chegar em casa cansado depois de um dia de trabalho e ouvir aquela faixa do novo Cd do Djavan, ou apenas cair na cama sem ao menos tirar os sapatos e velejar nas caravelas do inconsciente. Enfim, momentos recheados da mais pura simplicidade. O mundo está cheio de verdadeiros guerreiros, que vêm de famílias problemáticas, têm subempregos, pouco estudo ou saúde debilitada, não tão felizes como os "perfeitos", mas que sabem encontrar motivos por mais simples que sejam, para se sentirem felizes. Deveriam servir de exemplo para aqueles que são "perfeitos" infelizes. Lembro-me de um trecho daquela música: "Na vida a coisa mais feia, é gente que vive chorando de barriga cheia."
         Pode até ser que eu esteja errado, mas não acho que devíamos buscar incessantemente a felicidade, que escorre pelas mãos como areia na medida em que tentamos agarrá-la. O segredo, creio eu, é justamente sentir os grãos passando suavemente sobre a pele, o contato da areia macia massageando os dedos, a alegria de saber que podemos repetir esse momento. O melhor da felicidade é a busca, não a conquista.