sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sonhos


      Era uma tarde nublada de verão. Não estava frio nem chovia. Era apenas o instante. Apenas o momento certo. Do banco de madeira vi uma mulher que brincava com uma criança. Tinha os cabelos cacheados como os da mãe. De repente ela se vira e dá um sorriso. Acena e vem em minha direção. – Não vem brincar, pai? – diz a menina. Abraço-a e a deixo correr pelo parquinho. Sua mãe me sorri. Amo essa mulher. Amo cada parte de seu corpo, cada detalhe de sua alma. E ela sabe disso. Súbito acordo com o despertador. Não tive tempo de dizer o quanto a amo. E não posso evitar a lágrima furtiva. Sonhar às vezes é um exercício de frustração contínua. Acordar, de mortificação. Nesse exato momento ela lê o que sinto. Ela sabe o que sinto. E me olha sem saber o que dizer. Nesse momento eu realmente desejo a morte. Mas talvez a morte seja outro despertador. Talvez no momento da morte eu acorde novamente sem saber o que ela sente por mim. Fecho os olhos. Desta vez estou sentado à beira da praia. Ela está em meus braços, absorvida em seus pensamentos, olhando o mar. A paisagem não consegue competir com seu rosto. Embora tocado pelo tempo, permanece como uma pintura de Renoir, bela e enigmática. Ela sorri e deixa uma frase escapar, mas não consigo escutar devido ao barulho das ondas. Mas compreendo o que ela disse e respondo: - Também te amo! Ela ri e lembra do início de tudo, quando tentou me afastar, quando pediu que nada exigisse dela. Então digo que nada exijo, apenas me dôo de todo coração. Antes de beijá-la acordo novamente. Tenho pensado constantemente nisso: Quantas vezes mais terei de acordar até que possa continuar sonhando?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011



Sobre formigas

         Era praticamente impossível vê-la por entre as ranhuras do piso, mesmo sendo este de uma brancura límpida. Estava lá, esmagada involuntariamente por meu sapato, e diga-se de passagem, só a notei porque fui exatamente tirar meu calçado. Reparei quase que sem querer aquele animalzinho tremendo como se fosse portador do Mal de Parkinson. Estava morrendo. Como infelizmente não fiz medicina veterinária, e mesmo que tivesse feito não poderia engessar suas patinhas, tampouco fazer massagem cardíaca, apenas aguardei seu trágico fim.
         Nunca pensei que pudesse sentir-me tão mal com a morte de algo tão pequeno como uma formiga. Com certeza havia uma boa dose de influência de minha namorada, uma semi-vegetariana inconformada com a mortandade de animais à revelia em todo o planeta. Mas o fato é que comecei a me questionar: se temos responsabilidade ambiental pelos nossos irmãos animais, devemos nos ater somente a um determinado grupo de vertebrados? Será que aquele animalzinho que estava dando seu último suspiro não tinha alma? Será que tamanho é documento?
         Lembro de quando era criança e brincava de queimar formigas com lupas (atire a primeira pedra quem nunca brincou assim), jogava água nos formigueiros apenas para ver a luta pela sobrevivência. Me senti um assassino. A palavra é forte, mas é a única que me veio à cabeça. Assassino. Pensando assim, não creio que conseguirei meu lugar ao céu, pois tenho asco, raiva e até medo de outros animais de igual estatura. Mas me senti impelido a nunca mais mastigar um ser vivo novamente, mesmo que esteja morto. Será que consigo? - pensei comigo mesmo. Às vezes sinto necessidade de comer um bifezinho, uma vitela, um medalhão de frango, enfim..
         Subitamente lembrei que me alimento de tantos outros seres quanto me é possível imaginar. E mesmo que deixe de comer alguns animais, ainda há uma questão: Os vegetais não têm vida? Será que não possuem uma alma? Se não comer vegetais ou animais, de que me alimentarei? Acabo de lembrar como funcionam as coisas, da lei do mais forte. Tanto no reino animal como no vegetal, esta é a diretriz principal: sobrevive o mais forte! A única coisa que nos faz quebrar esta regra, é que nenhum outro animal ou vegetal precisa de mais do que o suficiente para sua subsistência. Somente os seres humanos têm a estranha prática da crueldade pela crueldade. Mas também têm a opção. Têm a vantagem de poder optar entre ser cruel e ser humano. Hoje tive meu momento humano. Estou de luto pela formiga.